Superação

Adaptive!

Moda inclusiva! Em 2016 a grife internacional Tommy Hilfiger lançou sua primeira coleção adaptada para crianças, a Adaptive Wear, em parceria com a Runway Dreams, uma organização sem fins lucrativos e o sucesso foi tão grande que a grife lançou no ano seguinte uma nova coleção, mas dessa vez sem parcerias, uma coleção digamos, mais inclusiva, para crianças e adultos. Como não amar?!

Tommy Adaptive Wear

Para esse ano já foi lançado a coleção primavera/verão 2019. Lembrando que as peças são adaptadas, mas seguem todo o conceito da marca, peças esportivas modernas, navy que é a marca registrada da Tommy. Os casacos, as calças, as camisas e as saias apresentam zíperes de uma mão, fechos magnéticos, bainhas ajustáveis e tiras de velcro. Algumas camisas são feitas com decotes fáceis de abrir e aberturas traseiras expandidas. Tudo isso feito por profissionais, alguns deles com deficiência e com o seguinte foco: desenvolver uma roupa que empodere as pessoas com deficiência.

É extremamente louvável o trabalho da Tommy, pois existe o risco de não haver uma continuidade.

Eu não poderia falar em adaptação e não falar em uma pessoa que eu tenho uma profunda admiração, apresento a vocês o João Carlos Rodovalho, ou como é conhecido pelo grande público, João Saci. João é dessas pessoas que a gente conhece na vida e agradece a Deus por isso. Tem uma história de vida incrível, eu poderia chamá-lo de resiliente (aliás, já fiz isso!!), mas depois de escutar uma pessoa falando sobre o assunto eu preciso discordar, segundo a psicologia, o resiliente é uma pessoa capaz de se adaptar às mudanças, que resiste às dificuldades. Mas a sua capacidade de ressignificar, de dar um novo significado a sua vida ou a qualquer oportunidade que aparecesse a ela sempre foi muito além.

O João venceu o câncer CINCO vezes na vida. Perdeu uma perna, um pulmão, foi atleta paraolímpico e hoje é atleta de Crossfit e está lançando um livro (maravilhoso, leiam!!) Nascido para Vencer Uma vida de Superações.

 

Nascido para Vencer

Uma amiga me marcou em um vídeo onde o João treinava, essa foi a primeira vez que o vi. Eu fiquei tão impactada com a história de vida dele que resolvi mandar um direct, queria saber várias coisas do seu dia a dia, entender um pouco como ele vivia e como era o João Saci. Ele não só me respondeu como me convidou para fazer um treino com ele. Óbvio que eu recusei risos…eu não daria conta nunca de acompanhá-lo. Pense?!

Não aceite ser o mesmo que você foi ontem.

Nós passamos a manter contato, mas foi esse ano que nossa amizade se estreitou. E pra falar não só sobre a Tommy Adaptive, mas também sobre o Crossfit, nós vamos fazer um bate bola com o João. Confere aí!

João você conhece a grife internacional Tommy? Recentemente ela lançou sua nova coleção a Adaptive Wear. O que você acha sobre isso? Uma boa iniciativa, uma necessidade que as marcas estão vendo de preencher esse mercado ou apenas para gerar um bom marketing pra empresa?

Eu conheço a marca sim, eu ouvi falar dessa campanha que ela lançou, eu acho que é válido pra mostrar principalmente no mundo da moda onde se busca tantos padrões, mostrar que as pessoas são diferentes, existe a adversidade, têm pessoas que têm limitações diferentes, necessidades diferentes, então quanto mais você fala sobre isso, mais você mostra essas questões isso se torna comum. Há tanto tempo atrás você não via deficientes andando nas ruas, cadeirante, era visto com um certo preconceito, entende? Então isso acaba mudando e mostrando, existem essas pessoas, elas são consumidoras e elas podem sim consumir produtos da moda, ter seus gostos e utilizar roupas de grife. Eu acho que é bem válido.

Vestido Tommy em gola adaptada com velcro

A primeira  vez que vi um vídeo seu treinando eu fiquei impactada. A gente meio que vai se encolhendo perto do gigante que você vai se transformando. E não que isso aconteça de forma intencional, é muito natural. Mas aos 17 anos, quando você descobriu seu primeiro câncer você chegou a vislumbrar que algo parecido poderia acontecer? Afinal de contas, você já era atleta de natação, você imaginou que poderia impactar tantas vidas positivamente?

Na época quando eu amputei a perna , em 2001, eu não imaginava que um dia tudo isso iria acontecer. Não imaginava mesmo que depois de 18 anos lutando contra o câncer eu teria mais 4 vezes além daquela e seria um total de cinco, e nem imaginava que um dia iria parar no Rio Grande do Sul, que um dia iria fazer Crossfit, não vislumbrava nada disso. A única coisa que eu queria era voltar a nadar, queria voltar a competir, eu já sabia que existia o esporte paralimpico e tudo que eu mais queria era continuar vivo e eu iria fazer tudo possível pra estar vivo. Não imaginava que iria impactar tantas vidas assim.

Você conta no seu livro Nascido para Vencer uma vida de superações, que o momento da amputação foi o mais difícil para você. Mas pra quem leu o livro (recomendo a todos desde já) fica bem clara para mim a sua capacidade de ressignificação. Você atribuiu um novo significado a sua vida, quase que imediatamente, não abriu mão do seu sonho que era a natação e tornou-se até um atleta paraolímpico. Como foi essa transição para você?

A transição de voltar a piscina foi tranquila de certa forma, porque como eu já nadava eu já tinha a mesma consciência corporal do nado, de como eu deveria nadar, o que deveria fazer. Meu técnico de natação na época, me falou que eu deveria ter uma braçada muito mais alongada, ter uma técnica mais apurada. Então eu fui trabalhando isso. E não é da noite para o dia que você se torna um atleta de natação de ponta, as coisas vão acontecendo dia após dia, treino após treino. Hoje eu estou vendo uma grande dificuldade que é tentar correr com a prótese de corrida, então eu sei que isso é um processo que demanda tempo, treino, da mesma forma que na natação. Quando eu voltei para as piscinas eu tinha uma certa dificuldade pra manter o equilíbrio, porque você precisa ter um centro de gravidade modificado e seu corpo precisa entender que falta uma parte, mas eu sabia que isso viria com o tempo.

Das piscinas para o Crossfit. Como foi essa transição para você? A gente sabe o quanto uma aula pode ser desafiadora e exaustiva e o quanto os atletas são competitivos. Você foi bem recebido por todos?

Foi uma grande mudança, primeiro que você sai de um ambiente aquático e agora você vai para exercícios praticamente no solo. No início foi bem complicado, mas quando eu fiz a mudança eu tinha 14 anos de natação, então você acaba criando uma consciência corporal e quando eu entrei no Crossfit eu tive que entender que eu era uma pessoa iniciante, que eu teria dificuldades nos movimentos, que as progressões seriam aos poucos , eu teria que aprender novas técnicas e esse ambiente desafiador me motivou muito. E no crossfit o pessoal me recebeu muito bem, o crossfit é um esporte muito inclusivo, quando entra uma pessoa que é nova, se está acima do peso, se tem alguma deficiência ou alguma limitação a gente sempre busca motivar pra que aquela pessoa se desenvolva e consiga fazer coisas que antes achava que era impossível.

Resista!

Qual é o seu ponto forte no Crossfit e o seu ponto fraco?

Até hoje eu não descobri o meu ponto forte no crossfit (risos…) porque é muito amplo, tem muita coisa pra desenvolver, mas o meu ponto fraco com certeza é o cardio. Muito pela falta do pulmão esquerdo, então isso dificulta bastante, mas é algo que eu tento trabalhar bem.

Você tem algum benchmark favorito? Se sim, qual seria? (Os Benchmarks são exemplos de WODs que servem como parâmetro avaliativo, para que seja possível acompanhar a evolução do praticante ao longo do tempo.)

Cada benchmark tem desafio diferente por exemplo a Grace que seria 30 Clean-and-Jerks é legal pelo movimento do LPO. Todo mundo  gosta de fazer levantamento de peso olímpico, então é bacana por isso.Mas o mais desafiador mesmo, que todo mundo faz pela superação de conseguir fazer e terminar, e ele testa sua capacidade mental de aguentar até o final é o Murphy.

João Saci


Geralmente todo atleta de Crossfit tem um background esportivo amplo até chegar propriamente no crossfit. Você praticou algum outro esporte além da natação? E como você conheceu o Crossfit?

Eu fazia natação e fortalecimento muscular com a natação. Conheci o Crossfit através das redes sociais, eu vi amigos meus que faziam o Crossfit e postavam foto dizendo que estavam cansados e tudo mais eu achei interessante e falei: eu quero fazer esse negócio aí! Eu estava passando férias aqui em Goiânia,, eu fui no box Primatas Crossfit e fiz a minha primeira aula experimental. Passei três dias morrendo de dor, mal conseguindo dormir por cnta das dores, mas pensando é isso que eu quero pra minha vida. Quando eu cheguei em Novo Hamburgo, lá no rio Grande do Sul eu comecei os treinos e não parei mais.

Quais foram as competições que você participou e futuramente o que podemos esperar?

A competição principal que eu participei aqui no Brasil foi a Monstar Games, já participei do Super Games em Porto Alegre e Capão da Canoa, já participei de outras competições menores em âmbito regional no Hotfitness Games em Florianópolis e já fiz vários Opens. O meu objetivo é participar do Wodapalooza em Miami, participar dessa competição seria o máximo e participar do Monstar Games aqui no Brasil outra vez , porque é a principal competição individual pra categoria adaptado.

João você mantém algum tipo de alimentação especial por conta dos treinos? Faz suplementação? Gostaria de usar algum produto de fora?

Sim, faço uma alimentação toda balanceada, específica para os treinos porque senão eu não dou conta de treinar. Faço acompanhamento com nutricionista, e de suplementação eu utilizo Whey Protein, BCAA, utilizo alguns repositores energéticos principalmente por causa do desgaste que é muito grande e Creatina. Suplementação de fora eu não conheço  nenhuma marca que seja referência.

Para treinar a melhor roupa é…? Tem preferência por marca?

Pra treinar a melhor roupa é uma camiseta e uma bermuda. As vezes eu gosto de treinar com bermuda de moletom, às vezes é com uma camiseta dry fit porque transpira muito. Marca de roupa eu prefiro aquela que é mais em conta pro meu bolso, porque a gente sabe como as coisas aqui no Brasil são caras, principalmente de marca. No Crossfit se utiliza muito Reebok e Nike. As fotos nós fizemos com a camiseta da Nike e ela estava bem bonita.

Camisetas Dryfit Under Armour e Nike

O tênis dos sonhos para treinar é?

São os próprios pra Crossfit mesmo que são os tênis da nike que são os Metcon ou os tênis da Reebok que são os Nanos. Particularmente, eu estou gostando muito mais da Nike, me sinto muito mais confortável.

Nike Metcon e Reebok Nano

 

E pra finalizar eu te deixo com essas duas perguntas:

Não sei se você se lembra, no primeiro contato que nós tivemos eu te bombardiei de perguntas risos…me lembro na época que eu perguntei se você não sentia o peso da obrigação de ser “o exemplo” para todo mundo. Você me disse naturalmente que não, que não era nenhum super-herói e fazia apenas o seu melhor. Naquela época , eu acho que era dezembro, eu não sabia do lançamento do livro. De lá pra cá muita coisa mudou? Eu te refaço a pergunta hoje: sabendo todos os lugares que você já foi com a sua palestra, as vidas que você inspirou com seu livro, as pessoas que você ajudou, o pacote completo João, o peso da responsabilidade ele já pesou ou não? E o que te motiva todos os dias.

Bom, o peso e a responsabilidade de inspirar outras pessoas eu não senti ainda não. Acredito que sou uma pessoa normal como qualquer outra, continuo achando isso mesmo após o lançamento do livro, eu fiz aquilo que era necessário pra continuar vivo, lógico que eu tive muitos aprendizados e isso eu posso passar adiante. Eu sou humano, eu tenho meus medos, minhas dúvidas, minhas angústias, sempre tento mostrar isso para as pessoas a diferença é que no instagram as pessoas acham que a vida é tudo linda e maravilhosa. E o que me motiva todos os dias é simplesmente saber que eu to acordando com saúde, porque em cinco momentos da minha vida eu tive que parar tudo, meus projetos, meus planos, vi meus planos indo embora, planos serem roubados pela doença e eu tive que mudar tudo pra cuidar da minha saúde, então o simples fato de acordar com saúde, bem, me motiva.


Posso dizer que essa foi uma das histórias que mais gostei de contar. Espero ter passado pra vocês um pouco da garra e determinação do João que eu conheço e da bela iniciativa da Tommy. Que outras empresas possam ter a mesma iniciativa. E quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho do João siga-o nas redes sociais @joaocrc lá vocês encontram links para palestras e vendas de livros.

@chrisataide

One Comment

  • Cida

    Que exemplo de vida !!
    Muito inspirador e nos faz ver que tudo pode ser adaptado inclusive a moda.
    Fico muito feliz em saber que o mundo fashion é capaz de criar moda pra todas as pessoas , sem destinçao.
    Parabéns pelo belo texto e sobretudo parabéns ao João por nos ensinar tanto

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